AskAbout

A Balada Exorbitante do Tempo

Um dia o tempo diminuiu o passo, entrou pela janela e conversou comigo.

Ele era um velhinho de jeito engraçado, com as canelas tão finas que quando andava parecia estar dançando. De vez em quando o vento batia e ele saía rodopiando. Mas isso não impediu que ele me dissesse:

“Cuidado com o que pensa,

a gente volta,

mas o tempo não.”

Assim ele riu como todo velho ri e deixou o vento lhe levar de vez. E o tempo passou para muita gente. Mas o tempo não passou para mim.

Quando o relógio marcasse TARDE é que eu iria acreditar que o tempo passou. Até então continuava sendo eu mesmo, de mesma idade, de mesmo cabelo bagunçado, sorriso e jeito torto de pensar. As costas doíam, mas eu não queria acreditar que já era hora de pensar num novo plano de fuga.

“Infalível. Incontestável… Inacreditável.”

“Não temos, infelizmente.”

Planos de fuga nunca são feitos com o real objetivo de fuga; com a melhor das intenções, certamente, mas acontece que todo plano é uma procrastinação. “A fuga não pode ser hoje?”

“Não.”

“Oh…”

Queria dois Guias de Fuga. Pedi por favor. A moça repetiu que não tinha, dei as costas e a ouvi depois cochichar para outra pessoa que não tinha era paciência de procurar.

Foi preciso ignorar a raiva.

Foi preciso ignorar muita coisa para tomar jeito na vida. O caminho de açúcar, aquela velha estrada de tijolos amarelos, já tinha desaparecido, já era só uma lenda, e muitos diziam que sempre fora uma. Mas eu sabia que era bem real. Ouvi dizer, uma senhora que regava as flores todos os dias dos canteiros ali perto, os que antes eram extensos e definitivamente bem mais coloridos, me contou com certa melancolia.

Ela declarou:

“Desapareceu quando se espalhou o boato que era feito de ouro. Logo se foi. Você sabe como funcionam as coisas…”

Essa foi a gota d’água, foi o brilho de verdade que não mais me parecia familiar, que realizar grandes feitos não era tão simples assim. Quanto eu estivera distraído?

Daí em diante a memória me falhava mais que o normal. A infância era um passado distante, mas não tão distante quanto deveria ser. Crescer não tinha tempo, apesar de tudo que eu vivia no momento era ordenado por isso.

“Eu podia chamar isso”, eu disse a ela no meu quarto, “de Terra do Nunca, sabe, aquela do Peter Pan…”

Parecia ter falado só para as quinquilharias que flutuavam no lugar. Ela respondeu:

“Você podia tomar jeito.”

Não, obrigado. Aquilo era exigir demais. Não deu dois dias para que eu a enjoasse e expulsasse de casa. As quinquilharias insistiram.

“Certo então”, eu disse a elas, botando uma calça e uma camisa de marca. “Eurealmente vou ter que fazer isso. Sabe, não é todo dia que eu consigo essa coragem. Essa paciência de ser que nem os outros. Quê? Que vocês estão olhando? Isso não tem nada a ver com o que ela disse… Bem, talvez tenha. Mas eu nunca vou deixar vocês. Não vou tomar jeito, não o jeito deles. Vou fingir um pouquinho.”

Elas deixaram de flutuar por um instante, caíram em queda livre até quase encostar no chão. Peguei os livros, os toca-fitas, as páginas de rabiscos, o trenzinho de madeira e os jogos de tabuleiro.

“Ora, parem com isso. Preciso de dinheiro!”

O dinheiro foi o suficiente para aguentar as demandas locais. O local era no início muito pequeno, a área era cinzenta, árvores colocadas metodicamente, nada de tão natural. Só que um dia eu vi isso noutro lugar, um inesperado. Depois, noutro, eu ri. Porque isso tudo não me deixou perplexo, talvez estava sob o efeito do fingimento. Ora, tudo aquilo era bem normal acontecer, uma vez em casa, eu poderia respirar aliviado.

Isso não aconteceu porque, bem… porque tudo corria muito rápido. Vestir um terno exigia esforço, e quase não havia tempo. Mal chegava em casa para dormir, e já era hora de correr ao som agoniado do relógio.

“Eu já ouvi.”

 Acabavam-se os sete dias, no último era convidado para a diversão. Nela eu via um homem de atlético blazer prateado, era simpático, mas o senso de humor muito reservado ao ceticismo.

“Vai ser divertido.”

“A gente te mostra a cidade.”

“Mas eu não sou de fora…”

“Não?”, risos e caras de espanto.

Recusar esses planos não colava mais, o homem moderno distante envolveu o braço numa mulher de mesmo jeito. Ela tinha o cabelo curto, usava um cardigan com saia curta. Ambos muito simpáticos, moveram suas cabeças chamando por mim. Então senti trair o velhinho saltitante, a senhora das flores e os brinquedos solitários.

Troquei muitas coisas por outras. No momento me pareciam o melhor a ser feito, o mais aceitável e menos constrangedor. A transição foi feita rápida e precisa, um truque de mágica. Cigarro e bebida eram necessários. E foram nesses instantes de fumaça e espelhos, com demônios e aranhas gigantes a dançar no ar, que eu notei meu crescimento.

O relógio não parava. “Ele nunca parou.” E quando foi que eu aceitei isso? Não tinha um contrato? E se caso tivesse, não o teria quebrado?

Uma voz distante não parava de gritar e subir e gritar e subir… E chegou ao nó da garganta como um soco.

A dona aranha 
subiu pela parede.

Veio a chuva forte 
e a derrubou.

Já passou a chuva, 
o sol já vai surgindo.

E a dona aranha 
continua subindo.

Ela é teimosa 
e desobediente.

Sobe, sobe, sobe 
e nunca está contente.

“Está bem? Você quer vomitar?”

Os olhos mareados e inconsistentes.

Sorri, fiz com a mão um gesto despreocupado. “Tô ótimo.”

O banheiro era grande e cheio de quadros de pessoas em vasos sanitário. Aquilo lembrava a época punk de um modo muito caricato e artificial. Diante do espelho nada era tão simples de identificar, meu rosto, meus olhos, minha boca que tremia.

“Você tá bem, rapaz?”, alguém perguntou.

“Tô sim, acho que é fome.”

E aquilo era verdade. A barba rala, que por muito tempo recusou-se a crescer, passou de causar um sentimento de conquista para repulsa. Nada daquilo me agradava.

“Isso nunca lhe agradou.”

Por cima do ombro, do outro lado do espelho, vi que a porta se abriu e jurei também ter visto um par de pernas finas sair dançando. Não dançando de modo feliz, apenas sendo levado porque continuar me olhando era difícil.

Poderia continuar vivendo daquele jeito.

“Não.”

Aquilo era perfeitamente normal. Todos vivem assim. Por que…

“Não.”

…eu não poderia ser que nem…

“Não.”

… Eles?

Não.

Não, o tempo não muda. O tempo não cansa de continuar andando e falando – às vezes gritando, às vezes cantando –, não espera por ninguém, não espera você se arrumar, não passa se o dia tiver chuva, não volta se tiver muito velho para subir em árvores. Mas ele não obedece à ninguém, e por isso meu apreço pelo velhinho.

Nunca se pode fazer as coisas voltarem a ser como antes, mas porque então deixá-las? Na verdade, elas nunca vão embora, o tempo muda, e o que há de ruim é feito por você. Você vai embora de casa, vai trabalhar, vai fazer as coisas da vida, e você deixa para trás aqueles dias. O tempo é que sofre por você. E seria bem compreensível se ele lhe maltratasse. Mas ele não faz isso sempre.

O canteiro de flores diminuíram porque foram substituídos, mas nunca deixaram de existir. O lugar era suficiente para viver caso alguém assim desejar. Eu escolhi deixá-lo em plano de fundo, como uma boa lembrança a ser resgada da memória nos dias difíceis. A recusa pelo avanço, no entanto, continuou.

“Meio termo nunca é fácil, mas por eliminatória pode-se tirar muitas coisas, sabe…”

“Com o tempo você melhora.”

Vai ver que esse é o problema. Vai ver que assim eu tomo jeito e aprendo de vez a sair de cima do muro.

Até lá eu faço o que me agrada. Seja por comodismo ou luxo ou ingenuidade ou preguiça, tudo se acaba. Só que o homem moderno e seu par de fachada não vão sorrir para mim. Esse é a minha eliminação, meu assassinato. “Que as flores pintem seu blazer, as arminhas d’água borrem a maquiagem, e que o tempo os façam velhos. E não me procurem de novo.”

Aí sempre que o relógio marcar TARDE eu vou dar dois tapinhas ou tacá-lo logo no chão. Não posso aceitar a verdade assim tão fácil.

Por que às vezes a gente esquece, às vezes a gente perdoa, às vezes a gente lembra com carinho.

E o tempo não volta, mas às vezes a gente volta, estando sujeito a tudo que passou de novo, de novo e de novo…

http://seismusicas.tumblr.com/post/77395471117/seis

seismusicas:

——————————————————————————————————————-

SEIS MÚSICAS PARA PEIXES

1. Daft Punk - Lose Yourself to Dance
2. MIKA - One Foot Boy
3. Plain White T’s - 1, 2, 3, 4
4. Cat Power - Sea Of Love
5. Lana del Rey - Driving In Cars With Boys
6. Guillemots - Sea Out

Which Neil Gaiman character are you?

Answer the questions and discover a Neil Gaiman’s character that fits on you